domingo, 25 de junho de 2017

Divulgação da nossa Cultura por Vindos D´Africa



grupo carnavalesco, Vindos D´Africa, desde de década de 80 têm levado a cultura Cabo-verdiana para a, Avenida Cidade de Lisboa, na Cidade da Praia, através dos seus desfiles, de modo a promover a mesma e contribuindo assim para a divulgação da mesma.


O carnaval é uma das diversas formas de manifestação cultural existentes no mundo, e em Cabo Verde ela é feita por diversos grupos em todas as ilhas, tendo nos últimos tempos maior repercussão no Mindelo. Na Cidade da Praia o cenário é o mesmo, e um dos grupos mais conhecidos é o Vindos D´Africa.

Entrevista a José Gomes (Breu) – Presidente do Grupo Carnavalesco Vindos D’África

Quantos anos de andança já tens no Carnaval da Praia?

O Carnaval do Bairro Craveiro Lopes, começou desde a década de 80 e o grupo Vindos D’África surgiu em 1983, a comando do antigo presidente “Gigi”. Tornei-me presidente do grupo Vindos D’África em 2007, cerca de 10 anos como presidente.

Como surgiu este interesse pelo carnaval?

Sendo que Bairro Craveiro Lopes sempre foi uma zona cultural, tendo grupos de teatro, pioneiros, bem como grupos dinâmicos que mobilizavam os jovens a participarem em eventos culturais da cidade da Praia. Então isso despertou-nos muita atenção, e quando o carnaval veio a surgir nós já estávamos com algum espírito cultural em nós e conseguimos incorporar facilmente no carnaval.

Como vocês fazem a transmissão da cultura através do carnaval do grupo Vindo D’África, sabendo que podem homenagear a cultura cabo-verdiana através de andores, alas, músicas, etc.?

A transmissão da cultura cabo-verdiana através do carnaval depende muitas vezes do tema. Normalmente a nossa grande luta aqui na cidade da Praia é tentar introduzir a nossa cultura dentro do carnaval, ou seja, que os cabo-verdianos entendam que a festa do Rei Momo é uma manifestação cultural aonde devemos levar a nossa própria identidade para ser manifestada na avenida ou nas ruas da capital. Infelizmente as pessoas em Cabo Verde pensam que têm de ter um carnaval com semelhança ao Brasil, isto é, se debruçarmos totalmente sobre a nossa cultura estamos a correr o risco de ser penalizado muitas vezes porque as pessoas estão com a ideia de que o nosso carnaval (Cabo Verde/Africano) deve ser igual ao do Brasil. É por isso que estamos com esta luta que cada ano levamos um tema que está relacionado com a cultura cabo-verdiana. Ao longo deste trajecto, levamos os seguintes temas: História e percurso de Cabo Verde; Luta da Mulher Cabo-verdiana; Temas sobre a gastronomia cabo-verdiana. Levamos alguns temas relacionado com a cultura de Cabo Verde, introduzindo-as paulatinamente para que as pessoas intendam que o carnaval é isto. Cada país no mundo deve introduzir no carnaval manifestação cultural, levar a sua identidade e manifestando-a de forma que deve ser feito.

Se tiverem algum tema que homenageiam outras culturas, sempre tentam levar um tema que reflecte a nossa cultura no carnaval?

Sim. Como por exemplo temos as alas que são as alas das badias. No carnaval do Brasil as baianas sempre têm de participar no desfile, então nós introduzimos as alas das badias durante dois anos consecutivos. No próximo ano queremos levar as alas das bairrianas que é uma ala das mulheres da zona do Bairro Craveiro Lopes que é algo que se identifica com a zona do Bairro. Este é um dado novo que queremos implementar para o próximo ano e o trabalho já começou-se a ser feito.

Falando da imitação do carnaval de Cabo Verde com Brasil, como comparas o carnaval aqui da cidade da Praia com as outras restantes ilhas?

Tem muitas coisas que precisam ser desmistificadas, como coisas que estão a ser ocultadas a favor de um ou de outro, sendo que muitas vezes quando o poder é entregue a um (São Vicente) faz com que a história seja dele. A história do carnaval saiu aqui da cidade da Praia na ilha de Santiago. Mesmo os historiadores brasileiros reconhecem que isto é verdade, que na Baía e no Ceará os carnavais mais tradicionais ficou mais ou menos por lá porque eles levaram daqui (África) para o Brasil. O carnaval veio da África e neste contexto, Cabo Verde está no meio. Movimentos corporais, trajes, dança, ritmo, tudo saiu de África e foram os escravos que criaram a “Tabanka”, e através da tabanka que começaram a manifestar-se. Depois surgiu o “Batuku”, mais tarde o “Funaná”, um conjunto de ritmos que saíram da África e depois foi levado para o Brasil. Por exemplo a Samba saiu de Angola e foi levado para o Brasil onde teve mais destaque. Neste caso a história do carnaval do Brasil saiu de África, e São Vicente segundo pesquisas que estou a fazer, já tinha desfiles com grupos organizados com andores e tudo em 1941. E São Vicente em 1940/1941 era uma ilha pode-se dizer meio despovoada, não tendo muitos habitantes, sendo das últimas ilhas a ser povoada, e não tinha pessoas suficientes para ter um carnaval organizado. E nós já tínhamos um carnaval organizado em 1941 na ilha de Santiago. Tínhamos grupos, andores e todas as outras coisas. Portanto são histórias que devem ser clarificadas.

Achas que deviam fazer um estudo sobre isto?

Não só deviam mas devem! Devem fazer um estudo sobre isto! Aliás, eu já comecei a trabalhar neste artigo, e de trazer a verdade à tona aos cabo-verdianos porque ela não pode ficar escondida.

Tens o apoio de alguma instituição para resolver esta questão?

Neste momento estou a fazê-lo individualmente em nome do grupo e depois posso fazer mais pesquisas. Até já tenho pessoas idosas que já partilharam alguns dados sobre esta história e já tenho muito mais dados, fotos, retratos que falam sobre o carnaval em 1941. Portanto são coisas que devem vir a claro em que São Vicente começou a fazer um carnaval organizado depois da década de 80 e que em 1975 na altura da independência de Cabo Verde no regime do PAIGC, na altura houve um ministro da cultura que se calhar por desconforto que tinha porque era o único “badiu” no meio do elenco governamental, ele transportou o carnaval de outras culturas do Santiago para São Vicente, apelidando-as como a capital da cultura depois de 1975. E aqui na capital já existia o carnaval muito antes, sendo reatado em 1980 com um enorme desfile entre muitas zonas em que o Bairro Craveiro Lopes ficou em 3º lugar. O desfile na época era no Platô, e eu era criança na altura. Nunca tiveram o interesse de apoiar para que a ilha de Santiago tivesse um carnaval a sério, canalizando toda a energia para São Vicente com os mindelenses a introduzir alguns efeitos do Brasil e ficou que o carnaval ideal para Cabo Verde tem de ser da ilha de São Vicente. Até hoje temos uma certa dificuldade de introduzir a nossa própria cultura dentro do carnaval.

Como consideras a nova visão social de que o carnaval de São Vicente é o ideal para Cabo Verde? Sabendo que se fala apenas na regionalização e não na centralização.

Quem está a falar isto é quem não conhece a história do carnaval de Cabo Verde! Até o Brasil reconhece. Eu já participei em fóruns no São Nicolau em que foram dados pelos brasileiros, e eles reconheceram que cada ilha tem a sua característica própria. É uma riqueza! Então se a cidade da Praia tem uma característica autêntica no carnaval, São Vicente adaptou ao seu estilo do carnaval e cada uma das outras ilhas tem a sua característica própria no carnaval, devemos pegar nesta riqueza e capacitá-las para que amanhã cada um ser um potencial naquilo que eles são. Não para que as pessoas achem que o padrão do carnaval ideal é o de São Vicente. Não, desta forma está errado! Desta forma eu sou contra! Quem está por dentro do carnaval, como pessoas do carnaval do Brasil contradizem o que as entidades falam como no caso do ministro que eu acho que é uma loucura e que não tem sentido.

Enquanto presidente do grupo Vindos D’África quantos títulos já venceram ao longo desta jornada?

Vindos D’África já tem 17 títulos de 1º lugar, prémio que poucos grupos têm em Cabo Verde, e os outros são de 2º lugar. Temos vários títulos de Reis e Rainhas porque antigamente havia apenas prémio para Rainha e só depois é que veio a ser introduzido o prémio para Rei. Temos troféus com certo peso para um grupo de dimensão como o Vindos D’África.

Ao longo desta caminhada, quais foram as dificuldades encontradas na organização do Carnaval?

Se não fosse por causa do nosso mas também de outros grupos, o carnaval na cidade da Praia já estava morto há muito tempo. E Vindos D’África veio depois de 83 em que grupos começaram a extinguir sendo o nosso grupo o único a sair para desfilar na avenida juntamente com Deus e Amor que também veio a desaparecer por causa do trágico acidente na descida da Terra-Branca em que morreram duas crianças. Ficando apenas o nosso grupo, veio reaparecer nos anos 90 alguns grupos como o caso do Inter-Vila. Ao longo desta caminhada tivemos problemas com atrelados e que em São Vicente é dado um mês antes e nós nos é dado dois dias e 48 horas antes do desfile para montar o andor; muitas vezes grupos aparecem com os andores queimados, tentando consertá-los no caminho do desfile; não temos patrocínio das empresas; temos discriminação grave de comunicação social em relação aos grupos da cidade da Praia, que praticamente aqui na cidade da Praia a notícia é dada de forma rápida, enquanto em São Vicente a transmissão do carnaval é dado na íntegra, ou seja, há uma discriminação grave que nos lesa de várias formas. Como exemplo temos a ENAPOR, a CV Telecom duas grandes empresas que não apostam no carnaval da cidade da Praia, contribuindo com 15 mil escudos de apoio para um grupo grande como Vindos D’África que muitas vezes sai na avenida com 400 e 500 mil pessoas no desfile. É um problema enorme, por exemplo temos a Câmara Municipal que dá 400 contos aqui na cidade da Praia e em São Vicente dá mil contos a cada grupo. Temos vários constrangimentos que pessoas não sabem.

O que achas que deve ser feito para melhorar estes constrangimentos?

Para melhorar, as entidades devem engajar-se mais e debruçar, porque eles têm conhecimento do nosso constrangimento junto dos grupos e por isso têm de solucionar os problemas. No caso da avenida cidade Lisboa, melhor em Cabo Verde para fazer o desfile do carnaval, já sugeri para ser retirado o separador central e criar um alternativo para que nos dias do desfile ter-mos uma avenida ampla; criar bancadas laterais, criar associações ou federações do carnaval que cobravam pessoas nas bancadas para sentar o que geria recursos e negociar com empresas de publicidades na avenida, com quiosques, há um conjunto de coisas que podem melhorar o carnaval na cidade da Praia. O que se está a faltar é ter a lei de mecenato que não funciona na prática apenas na teoria. As empresas não dão apoio porque quando vão nas finanças o constrangimento é enorme que ele não vai apoiar. São constrangimentos que devem ser melhorados porque aqui é o capital, sem tirar mérito dos outros.

Achas que o carnaval de todas as ilhas deve ser levado da mesma forma?

Sim, da mesma forma. Por exemplo eu numa corrida com Usain Bolt não posso correr com ele numa vantagem de 10 metros à minha frente porque nunca mais o vou vencer, visto que ele é melhor. Não tem sentido! Neste caso devemos partir de uma meta de igual para igual, e é lá que vamos ver quem é melhor. No entanto exige responsabilidade, prestação de contas, e tudo aquilo que for necessário, neste caso estou de acordo. Realmente fizemos um investimento em todas as ilhas de igual para igual mas São Vicente ainda está a mostrar que é melhor, já se é-lhe oferecido mais não vou reclamar de nada. Não é por causa da nossa incapacidade, é meios que não temos.

Achas que estes constrangimentos é de conhecimento da nossa autoridade?

Como já tinha dito a história veio desde 1975, aniquilando o carnaval na cidade da Praia. Já há muito tempo estão a tentar acabar com o carnaval na Praia e se não fosse pela nossa persistência já estaria aniquilado mesmo. Eles não têm vontade, aliás o atual ministro já mostrou que não tem vontade. São coisas que já há muito tempo está a reinar e com a vinda do atual ministro da cultura (Abrão Vicente) piorou a situação, discriminando-nos claro. Nós do grupo Vindos D’África estamos a fazer a nossa parte, o nosso trabalho de casa e este não participamos no carnaval precisamente para que tivesse algum impacto a todos. Realmente foi visto este ano que o impacto que teve na avenida foi negativo. Foi por este motivo que não participamos no carnaval deste ano. Agora nós estamos concentrados no nosso trabalho de casa e espero que o Governo e a Câmara Municipal irão fazer a parte deles para que no próximo ano tenhamos um carnaval de bom nível na avenida cidade Lisboa.

Acerca do trabalho de casa para melhorar o carnaval na cidade da Praia, só o vosso grupo está a fazê-lo ou mais grupos também estão a optar por este meio?

Nós nos mobilizamos junto com os outros 5 grupos oficiais que não saíram para o carnaval deste ano precisamente para que tivesse reações por parte do Governo por causa da quantia dos apoios em relação ao São Vicente. Portanto já apelei aos outros grupos carnavalescos que não participaram no carnaval deste ano para começarem a fazer os seus trabalhos de casa assim como nós já começamos, para que no próximo ano quando formos chamados, estaremos todos prontos para fazer um carnaval de bom nível.

A Câmara Municipal da Praia e o Ministério da Cultura não disseram nada aos grupos acerca deste assunto?

A Câmara Municipal já chamou alguns grupos para uma reunião sem data prevista. No caso do Ministério da Cultura ainda não disseram-nos nada, nem um telefonema, no entanto o ministro (Abrão Vicente) já foi para São Vicente, visitou grupos, fez promessas e ainda continua a reinar esta discriminação.

Sendo que a maior parte das autoridades no tempo do carnaval vão para São Vicente, como analisa este facto?

Eu tenho uma outra leitura. São Vicente ao longo dos tempos tem sinais em termos de empresa, industrias, teve algum declínio e escassez de recursos. Estão a tentar tapar os olhos das pessoas de São Vicente com o carnaval, que quando não tens como fazer para dar-lhe outro faz-se de conta que em um mês de carnaval ganha algum recurso. Eu tenho uma outra visão sobre isto tudo. Se São Vicente tem problemas de recursos então põe-lhe no Orçamento de Estado, aumenta-lhe algum cabelo para o subsídio de desemprego entre outras coisas. Agora não venha discriminar ninguém no tempo do carnaval, indo para São Vicente e discriminando os outros, ficando de coitados. Afinal todos somos cabo-verdianos! E estas entidades continuam tudo igual, é sempre a mesma coisa. Políticos são a mesma coisa, sai um entra outro mas todos são farinha do mesmo saco, a filosofia continua. Pelo menos no que tange ao aspecto cultural mostraram ser a mesma coisa.

Mesmo com várias dificuldades em diversos aspetos, o grupo Vindos D´Africa tem vindo sempre manifestando interesse, não só em fazer bons desfiles carnavalescos na Cidade da Praia como também na divulgação da Cultura Cabo-verdiana no longo de tempo da sua existência.

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